sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Inimigo íntimo


Um belo dia, enquanto fazia o ultra-som, minha mãe, por entre aqueles rabiscos e sombras indecifráveis, teve um vislumbre do que seria meu nariz. Apavorada, fez o sinal da cruz e se compadeceu de sua pobre cria. Não que não fosse previsível, já quem nem meu pai e muito menos minha mãe são portadores de um belo aparelho nasal. Felizmente, por ironia do destino, aquela sombra não passava de meu cotovelo.

Contrariando a genética, nasci com um belo nariz, arrebitadinho, até arrogante, diriam alguns. Durante minha infância todos elogiavam meu nariz...mas não se pode confiar no julgamento de parente, de modo que não sei se era ou não bonito o dito cujo.

Então, quando eu já era "gente grande" me apercebi, finalmente, do meu nariz. Lá estava ele, bem no meio da cara, dizendo "oi". Olhei e fiz uma careta. Ai, que feio. Aliás, meio feio, porém não o suficiente para uma rinoplastia ou qualquer outra medida drástica, mas, ainda assim, feio. Concluí que aquele nariz era apenas digno de desprezo.

O nariz, por sua vez, diante da nossa falta de diálogo, resolveu partir para a ignorância, para a agressão física. Foi tomando terreno aos poucos, testando sua força com algumas pequenas alergias. Agora, ciente de seu poder e com sede de vingança, decretou greve geral, resolveu que só vai voltar trabalhar depois das festas de fim de ano, já que há vinte anos não tira férias. Como todo bom tirano, conseguiu aliados, as orelhas e a garganta, e todos, unidos em sua tríplice aliança, estão transformando minha vida num inferno, com seu levante popular em meu encanamento interno.

Hoje resolvi mandar uma proposta de armistício.





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